30.

e tinhas as vozes de todos os muros interrompidas, naquele embate
exacto do espaço onde a terra não avançava mais, acordavas assim
junto aos insectos nas minhas orelhas e o tenebroso descanso militar
estagnava nos olhos cansados, e eu dizia-te no íntimo, e entre essas
vozes que sussurravam o instinto caminhava a saudade, de mistério
ardente nas circunferências, e dizia-te tudo como ouvidos no seu
 silêncio absurdo, tinhas os muros infiltrados por todas as dores,
tinhas os campos chacinados no tempo de criar, tinhas desflorido
esse coração desusado, de trauma, de concussão, de haver vida em ti.


Rute Castro, O sangue das flores, Artefacto, 2014