22.

                                                             

hoje o dia arrasta a poeira de um espectáculo natural, todos a postos
nos rostos, todos a postos para as partidas que nos distanciam de
nós, todos a postos para a fuga. hoje acorda o tempo no derrame dos
corpos, e por aqui a força da voz é repousar nos livros que tombam.
a criança e o segredo que tem acompanham os vínculos da coisas,
a criança acorda e os brinquedos actuam, hoje tem de se sair, ser o
corpo errado, ser a fome errada, ser o brilho errado, entrar no carro
funerário, mas as crianças brincam, as crianças riem, as crianças
vestem os fatos dos ossos que passam nas grandes ruas da vida. a
calçada desprende o contexto e chove de uma água antiga e morta,
de uma água que nos queima a boca. o boneco atira-se às espirais
lamacentas e a criança deixa-se fica na admiração dos séculos.

Rute Castro, O Sangue das flores, Artefacto, 2014