Para o G.
a eletricidade é um meio de desequilíbrio, podemos perder a visibilidade das coisas,
há que ver as casas pelas veias.

Rute Castro








...a sombra dita a luz
não ilumina  realmente  os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como amantes
de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos    e  na boca.


Mário Cesariny
Um amigo meu, dizia:
-”O meu nome não é importante:
só serve para me chamares!”
E desatava a rir:
e no seu riso havia
o nome oculto que ele sabia
sem saber pronunciar.”



António Barahona
*
as portas por onde passámos são portas que rangem a solidão, que seja em companhia.
*
houve minutos em que nos silenciámos como gabinetes médicos depois de uma intervenção que corre mal,
saímos e o mapa apontava direções de saudade, um luto apertado frio, rios com as quedas iniciadas no nosso sufoco.
*
o algarve tem ar de deserto, tu que aqui vives sabes que respirar abafa com línguas de babel em fúria.
*
era assim que se abandonava a inocência da figura à janela, paisagens para dentro de casa, irrespiráveis .
*
oh, mas a nossa ecografia sempre foi inatingível, como um corredor que nos digere inconscientes,
febris pelo mundo, onde veios secundários são imprescindíveis à dinâmica da dor de cabeça.
*
a minha quinta tinha dez metros e dias enterrados perto de uma árvore.


                                                                                     Para o Bruno.


Rute Castro
o julgamento é a vida arejada por toda a toxicidade
e a bagagem interior espera o dia nesta localidade
no segundo arranjado para a refeição.
tenho em mim apenas o brusco que dá para o binóculo enegrecido,
que me lê uma história em que refino o escorpião e me mergulho sem saber nadar,
a minha história não tem fim,
também não tem início,
tem horas de segurar as aves no choro, engoli-las por dentro,
um antes e depois muito rápido até não se distinguir o corte dos anos,
terrível a espécie das coisa sem nome.
os seios alimentam a grande vista 
com a solidão de todos em transfusão.
tenho o estrondo do acordar das alvoradas,
e vocês explicam-me, querem explicar-me,
sacudo o mar, terra, barcos
e há a vontade de abraçar
quem arranha as paredes brancas dos dias,
de procurar para sempre a ventoinha na pedra das coisas,
qualquer passeio que déssemos sem pontes caídas
sem respirar de saco por dentro
com a exaustão de cavalo usado até à última queda.
as pedras não respiram
mas eu de isqueiros prontos e fósforos
prometi o lume da lembrança
ambulâncias
socos no peito da vida,
acordar uma lágrima, apenas uma lágrima
que me fizesse entrar em casa à força.


Rute Castro
todas as flores descendem os reinos às tuas palavras
mesmo aquelas que no castigo dos habitantes
são massacres junto à crosta
havemos de subir juntas num avião mais seguro
havemos de tocar a fé
cunhá-la por dentro como uma moeda milenar
pagar o mundo com esse sorriso
não é assim que nascem os pássaros?
das datas escritas na areia
que depois ecoam pelas ondas a eternidade.
todos, todos criam o segredo de amachucar na pele a história
e verter a dor ainda com olhos de criança.
o mundo por vezes deixa o colo em terreno arenoso
aqui
o tempo esvai pelo embrião maduro
no pleno fruto da época
e as térmitas usuárias teimam na conquista
de uma boca doce
de um lado claro

assim te assiste o relógio
no horário das bonecas
que nunca cantam canções de meninas
que não sentem o absurdo de limpar as mãos na areia
que nunca sentem medo de se perderem
porque não cabem na palma da mão e não tremem
por um barulho desconhecido

porque do segredo vivificante
as crianças
de corrida rápida até mim
e eu escuto por dentro da terra
a lava no ferver da palavra

combatente da noite
repito que a voz
irá alimentar
com agulhas para soro
a chave de baú antigo
que está no domínio das aves


Rute Castro
e salvar-vos na cruz, com a fúria da nova geração :o segundo-rei

com a coroa de espinhos


e a verdade do ápice


 *


 não sei se as avós se preparam para a noite,


se ainda há nas suas peles o monumento a morrer trancado,


 ainda assim a escola poder acabar e eu sentir que os gritos ainda sacodem os anos


como lanternas para alertas nos olhos ,


 é a noite, é a noite a alvorecer, é a noite


 *


 está aquele frio de ver pelos tectos as circunstâncias interiores.


 pentear o cabelo como na tua fotografia.


quando os candeeiros se erguerem em mim


 as minhas palavras abrirão mapas precisos


 até ao tempo dourado pelos teus pés,


mandando a jusante o andar de sandálias esfoladas


 *


 mas o tiro certeiro


 acredita num peito puro



*


 hoje o espelho


 de   faca    atenta ao sorriso


*

 tenho de visitar o sol

 pôr-me a par das horas


 cumprimentar velhos hábitos


 arrumar as camas dos gatos


 deixar a casa entrar


 tirar das veias as palavras


 *


 Começa. 


 Aragem de pulsação fria. Segredos importantes à corrente sanguínea, mortos.


 Arrasta o peso das gárgulas, afastando as paisagens cortantes no frio do inverno.


 Faca com faca . O que ergue. O que ergue primeiro. Braço de força :


 a dança, o vento, a lágrima batendo forte.


 Os bolsos da partida vão cheios da luz em curto-circuito.


*


da periferia:


 aqui irei moribunda de dentes  ao doce da festa.


tenho um mapa a cumprir nas células.





Rute Castro

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Pesquisador nocturno
nocturno
nocturno
nocturno
electricista montador de sonhos



António Barahona


"Os mortos, Francisco, ainda pedem esmola."

Paul Celan

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"O amor constrói" Evangelho de Filipe

Philip Glass - The Hours (2002) soundtrack: 08. Dead Things

seríamos dizendo mais do que alguém de solitário espaço ou mais do que alguém da altura de silêncio esmagador que esquece quando nascemos,
mas a dança dos abutres indica-nos a casa abandonada, é entrar a ver pela lupa a falta de interioridade, 
em évora, a capela ainda aguarda por nós, entraremos de ossos às escuras do dia poder chegar


Rute Castro

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39 et ait Dominus ad illum nunc vos Pharisaei quod de foris est calicis et catini mundatis quod autem intus est vestrum plenum est rapina et iniquitate 40 stulti nonne qui fecit quod de foris est etiam id quod de intus est fecit 41 verumtamen quod superest date elemosynam et ecce omnia munda sunt vobis
42 sed vae vobis Pharisaeis quia decimatis mentam et rutam et omne holus et praeteritis iudicium et caritatem Dei haec autem oportuit facere et illa non omittere 43 vae vobis Pharisaeis quia diligitis primas cathedras in synagogis et salutationes in foro 44 vae vobis quia estis ut monumenta quae non parent et homines ambulantes supra nesciunt

 Lucas 11

30.

e tinhas as vozes de todos os muros interrompidas, naquele embate
exacto do espaço onde a terra não avançava mais, acordavas assim
junto aos insectos nas minhas orelhas e o tenebroso descanso militar
estagnava nos olhos cansados, e eu dizia-te no íntimo, e entre essas
vozes que sussurravam o instinto caminhava a saudade, de mistério
ardente nas circunferências, e dizia-te tudo como ouvidos no seu
 silêncio absurdo, tinhas os muros infiltrados por todas as dores,
tinhas os campos chacinados no tempo de criar, tinhas desflorido
esse coração desusado, de trauma, de concussão, de haver vida em ti.


Rute Castro, O sangue das flores, Artefacto, 2014



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22.

                                                             

hoje o dia arrasta a poeira de um espectáculo natural, todos a postos
nos rostos, todos a postos para as partidas que nos distanciam de
nós, todos a postos para a fuga. hoje acorda o tempo no derrame dos
corpos, e por aqui a força da voz é repousar nos livros que tombam.
a criança e o segredo que tem acompanham os vínculos da coisas,
a criança acorda e os brinquedos actuam, hoje tem de se sair, ser o
corpo errado, ser a fome errada, ser o brilho errado, entrar no carro
funerário, mas as crianças brincam, as crianças riem, as crianças
vestem os fatos dos ossos que passam nas grandes ruas da vida. a
calçada desprende o contexto e chove de uma água antiga e morta,
de uma água que nos queima a boca. o boneco atira-se às espirais
lamacentas e a criança deixa-se fica na admiração dos séculos.

Rute Castro, O Sangue das flores, Artefacto, 2014

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"  o belo tem fonte anterior
       e sede de criaturas"



Rute Castro, O Sangue das Flores, Artefacto, 2014