poder ver um animal sem dono e faminto nos teus olhos, enterrada a alma das tuas palavras e confiar no mundo às apalpadelas, onde cabem os sustos das crianças de cobertor a tapar o mundo. 
estarei sozinha, sim, passeando nos mapas desertos da tua profundidade, dominante como uma estrela que pára a queda e não mexe um ponteiro iluminado.
eu sei sobre a boca aberta da noite e sobre o seu envolver esmagador.   


Rute Castro


não eras apenas tu que te deitavas
no precipício
para onde se empurram os passos

caça de sonhos
sem alma
gelando o peito de leite.

a terra cheira ao grito dos estranhos
as aranhas já comem
onde as promessas sufocam

é a tempestade estagnada nos olhos da reação
onde o golpe sangra as paisagens de neve
e onde te deitas nu
mamando as horas da vida.

Rute Castro







                                                    sombra, acrílico sobre tela, 40x30cm,2018

esperança, acrílico sobre tela, 2017
No tempo das multidões escondidas, dos galos anoitecidos, o estranho bate à porta , uma borboleta de violência abstrata bate no vidro, algo a ser lembrado a cheiro, a mãe embala o filho e há no invisível as linhas férreas do pensamento, a trovoada entreabrindo o céu de nome e apeadeiros. A primeira música é o choro natal calando os surdos, a mãe que embala o filho sabe do valor de não ter peso, do colo de um estado atento pelas aves do mundo. as multidões escondidas alastram-se a uma palpitação na pele. O poder dos índios que não se resignam ao silêncio, das sombras e dos dentes dos monstros de infância. Os armários ainda têm portas circulatórias e há esqueletos assustando as noites.


A mãe ainda embala o filho de bandeiras derrubadas sorrindo para a terra e coagulando o estado memorável ,como as meninas que ainda firmam as raízes pelo caminho para a escola na terra que o pai acompanha, e o biberão verte o leite para a plantação sazonal, pedaços de mármore decompõem-se na direção das linhas do rosto para uma habitação soalheira, ela repara no calor das histórias que ainda sopram vestígios e pegadas numa nota musical circular que ultrapassa mortos.

Rute Castro




Para o G.
a eletricidade é um meio de desequilíbrio, podemos perder a visibilidade das coisas,
há que ver as casas pelas veias.

Rute Castro








...a sombra dita a luz
não ilumina  realmente  os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como amantes
de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos    e  na boca.


Mário Cesariny